
Uma das maiores referências do skate mundial, dono de 30 medalhas conquistadas no X-Games, Bob Burquist chegou onde chegou graças ao caráter obsessivo na busca pela auto superação nesse esporte que desde Tóquio 2020 virou também uma modalidade olímpica.
Os interesses de Burnquist vão muito além do skate. Ele pinta, toca bateria, salta de paraquedas, é piloto de avião, estudou mecânica e geometria, e expressa a sua criatividade de uma maneira única, que você pode conferir no documentário “A Lenda do Skate”, que estreou há poucos dias na HBO.
Nesse papo com Anita Krepp, da Breeza, essa lenda do esporte, que foi também uma das primeiras figuras públicas a defender abertamente a maconha no Brasil, fala sobre a erva, claro, mas também sobre psilocibina – que usa em macro e em microdoses –, sobre o poder de visualizar para materializar, e ainda comenta sobre o skate nos Jogos que se encerraram no último domingo, inclusive sobre a estranheza que lhe causa ver os skatistas de uniforme.
Quando você faz essas manobras impressionantes, qual é a sua sensação no momento imediatamente anterior e também a sensação no momento exato em que você está no meio da manobra?
Tudo é visualizado antes de fazer acontecer; mas tem um pensamento, uma ideia. Depende da manobra, principalmente as que nunca foram feitas, você tem que enxergar para ela ser feita, então é meio que um trabalho de visualização mesmo, né?, do corpo, de onde que ele tem que estar, e aí é cada movimento no seu momento. Então você sabe o que tem que fazer, mas você tem que ir na hora certa, se você for ansioso, não funciona, aí você demora demais. Principalmente na megarampa [modalidade da qual Bob é um dos pioneiros, trata-se de uma trampa de 30 metros, do tamanho de um prédio, da qual ele salta e faz manobras] que é uma calma na tempestade. É muito rápido, se você faz o movimento brusco, não funciona. Você tem que fazer movimentos muito leves, devagar, para mudar, porque é distante, né?, então, assim, eu fico muito pensando ali o que está acontecendo, como é que está o vento, velocidade, entra uma mentalidade até de piloto, porque a questão de ir ou não ir, de como é que eu estou, como é que está meu corpo; começa a alinhar um monte de coisa para aquele momento ali acontecer. Quanto mais você trabalha antes, mais fácil é o momento de ser realizado.
A gente sabe que a mente é capaz de criar, melhorar ou piorar as situações, e aí depois de tantos anos desafiando a própria mente e o próprio corpo, existe algum hábito, além da visualização, de que você não abre mão?
Ah, eu acho que muito naturalmente o skate tem essa de, até porque se você não fizer direito, você vai cair e se machucar, né?, então entra um instinto de querer fazer de um jeito que você não se machuque. Então como é que você faz para não se machucar? Bom, você aprende a cair. A confiança vem do tempo que você está em cima de alguma coisa, mas também das falhas, principalmente das falhas, porque quanto mais você falha, mais confiante você está de, em algum momento, acertar. Acho que é basicamente isso.
“A confiança vem do tempo que você está em cima de alguma coisa, mas também das falhas, principalmente das falhas, porque quanto mais você falha, mais confiante você está de, em algum momento, acertar”
O que você faz você ser quem você é? Quais são as características as que você atribui ser uma das lendas do esporte brasileiro? Tem essa calma em você, ou você foi construindo isso?
Eu tenho os dois em mim, acho que esse é o grande lance, na verdade. Eu tenho uma intensidade e tenho também uma calma. Você precisa de momentos onde você precisa ter calma, e tem momentos que você precisa ser agressivo em relação ao ataque, ao movimento, ao, pô, vou me machucar, mas beleza, tudo bem, caiu, machucou, levanta. Isso é uma coisa que vem de uma força de vontade que é maior, é simplesmente a vontade de fazer acontecer, de saber que é possível, que já aconteceu antes. Se você já passa por algumas batalhas e ela já aconteceu [a vitória], fica mais fácil de você insistir, porque você sabe, posso tentar por duas horas, cinco horas, três meses, quatro meses, mas eu vou voltar. A calma que eu tenho, na verdade, é para poder lidar com uma situação de alto risco. Eu preciso estar relaxado, eu preciso estar calmo, eu não posso estar impulsivo. A impulsividade estraga. Tem um momento para isso, mas, na maioria das vezes, você tem que estar calmo. O skate me puxou, me forçou a ser assim.
Sempre vi o skate como uma forma de expressão e mais, como uma forma de agradecimento por eu estar vivo. Se eu acerto qualquer manobra nova, ou uma que nunca foi feita e eu pude estar presente e vivo para poder fazê-la acontecer, da mesma maneira que uma onda que vem, ela vem só para você, né?, se você parar para pensar. Eu ia muito mais para o lado espiritual, sempre fui mais espiritual em cima do meu skate, então, eu preciso ganhar esse campeonato não porque eu preciso ter a glória de ganhar esse campeonato, eu preciso fazer porque eu preciso manifestar, porque eu visualizei isso, esse era o meu sonho, eu vou fazer acontecer porque é o que eu quero e me faz feliz, e espero que inspire outras pessoas para que elas sejam felizes também. Cada manobra é uma prece, sempre foi e sempre será, cada manobra acertada, quanto mais arriscado fica, e o que pode parecer maluco para alguém, para mim, é um tempo de construção das minhas habilidades naquele momento. Aquela realidade pode acontecer porque eu juntei tudo isso, aprendi a andar de skate, cheguei na megarampa, comecei a saltar, paraquedista, piloto, aí saltei do helicóptero, porque, né?, pus a rampa no Grand Canyon, porque eu sabia os dois, então, as coisas, elas não eram assim. Se eu fosse só skatista, era maluco. Se eu fosse só paraquedista, era doido. Como eu sou os dois, e quem eu sou, o que eu consigo até o presente momento, me traz ideias novas para poder manifestar.
Mas isso é uma elaboração de uma pessoa com 40 e poucos anos. Você falando parece ser uma coisa até fácil, mas, na prática, o que a maioria das pessoas vive é uma guerra interna entre a calma e o desespero, nem todo mundo encontra essa calma.
Lógico que todos somos diferentes, e eu nasci de um jeito, você nasceu de outro, outro nasceu de outro, então sempre procurei pra mim a profundidade das coisas, sempre vi, obviamente, minha mãe, meu pai, a forma que eu cresci, as pessoas à minha volta, isso começa a me formar, mas a minha personalidade sempre foi de ´você vai ver o que eu vou fazer´, porque o ‘não’ quer dizer que você não consegue, mas eu vou te provar que você consegue, conseguindo. Eu sempre vi o skate assim, até porque, por isso que eu sou piloto, paraquedista, já passei por diversas emergências, já passei por vários tombos de skate, mas, por quê? Eu tenho uma personalidade que, no momento que eu preciso, eu acalmo, depois é o depois, mas no momento, você tem que estar ali, presente, então, a minha vida inteira eu aprendi a ser presente. Andar de skate é um zen forçado, se você pensar em uma outra coisa, você vai cair e vai se machucar. Para mim, skate é meditar. Eu aprendi logo que eu já corri de vários jeitos, já corri calmo, já corri puto, já corri de várias maneiras, e já consegui ganhar de diversas emoções diferentes, mas a melhor de todas é a que você está em paz, que você está calmo. Pode estar com o braço quebrado, isso não quer dizer que não está machucado, mas você pode estar em paz.
“Andar de skate é um zen forçado, se você pensar em uma outra coisa, você vai cair e vai se machucar. Para mim, skate é meditar”
A gente está na semana de lançamento do seu documentário na HBO. Como foi revisitar tantas memórias no processo de produção desse doc.?
Foi para o Daniel Baccaro, que é o diretor e meu amigo de infância. Acho que para ele foi intenso no sentido de buscar todos os colaboradores, ir atrás de conteúdo. A gente passou pelo processo durante a pandemia. E eu não participei, até porque se eu entrasse nessa, eu ia codirigir, e aí eu ia falar ‘não, isso assim, isso não, ia entrar na onda, porque eu sou assim, não ia ter como’. Então, realmente, eu soltei, deixei, e não vi nada até o momento que ele me mostrou finalizado. O que mais me impressionou foi ver imagens, conforme apareciam as entrevistas e as imagens que apareciam, porque era assim, eu falei A e apareceu a imagem A lá de não sei quando. O primeiro campeonato está lá, a imagem do primeiro campeonato, e eu ficava ‘caramba, como é que você conseguiu pegar essa imagem?’.
Assim como o skate foi marginalizado e agora experimenta um novo lugar social, a cannabis também tem uma trajetória parecida, então eu queria que você falasse um pouco sobre as intersecções entre skate e maconha.
O skate é de uma contracultura que, ao mesmo tempo, a gente se machuca todos os dias. Eu vivo com o corpo machucado, e a gente tem muito uma consciência do corpo, porque assim que eu quebro alguma coisa, eu quero voltar o mais rápido possível. Então, eu sempre olhei para diversas maneiras de saúde, não só do corpo, mas mental e tal. Acupuntura, ervas, dieta, todas essas coisas, tudo faz parte. Dentro do nosso sistema, do nosso corpo, nós temos um sistema endocanabinoide, a gente precisa, tanto quanto a gente precisa de várias outras substâncias, não é uma coisa que as pessoas sabem, mas é uma realidade, como vitamina D, vitamina C e tal. A sombra em que a cannabis vive traz a desinformação e a má qualidade é a real doença; e aí o entorno que é, por ser ilegal [no Brasil], o tráfico e toda essa coisa pegada. Mas, se você tirar isso, né?, porque isso vem de leis ultrapassadas, que estão já melhorando… quando eu me machucava, se eu tô com osso pra fora, vou tomar um remédio, um opióide da vida. Eu tomava, só que não dava dois, três dias e começava a passar um pouco e eu já começava a retirar, porque eu sabia que era uma coisa que, se eu continuasse, eu ia viver viciado e eu, com 47 anos, não ia estar andando de skate, né?, ia estar todo ferrado. Tenho muitos amigos que se quebram o tempo inteiro e abusaram da substância porque, né?, viciou. Então, a maconha, ela sempre foi uma forma de eu não viver em dor. Você pode fumar, né?, tem cachimbo e tal, tem várias maneiras diferentes, só que ainda bem que tá saindo desse tabu, porque é uma realidade pra muitas pessoas que precisam dela, e no meu caso, eu prefiro usar coisas mais naturais. Eu vivo uma vida à base de plantas, sou vegano 98% das vezes, tem os 2% que escapam (risos). A cannabis faz parte de vários lifestyles, do skate, da natação, como todos os seres humanos, as pessoas atrelam ao skate, engraçado, mas não somos os únicos.
“A sombra em que a cannabis vive traz a desinformação, e a má qualidade é a real doença; e aí o entorno que é, por ser ilegal [no Brasil], o tráfico e toda essa coisa pegada”
Você chegou a empreender no ramo, com a Farmaleaf. Em que pé vocês estão?
Sim, a Farmaleaf é Farm-A-Leaf, né, é Farming-A-Leaf, de crescer uma planta, é uma empresa de plantas medicinais, então não é só cannabis, deu uma evoluída, e a gente teve diversos produtos, sim, né, com cannabis, vários óleos diferentes, moringa e tal. Skate, você precisa curar, né?, você vai se machucar, você precisa curar, então foi uma naturalidade de tentar encontrar, e a gente prega muito o lance da vida à base de plantas/ Então, sim, tomar cuidado com o que você come, a sua saúde começa na sua dieta. Aí, a Farmalife, na pegada tarja verde, no sentido que essa é a visão, ela deu uma evoluída pra área de tecnologia e marketplace pra solucionar o mercado. Se você tem uma receita alopática, você pode gerar uma tarja verde, que seria tarja preta numa receita homeopática. Não parar de tomar, porque você precisa seguir o médico e tal, mas que te encaixa uma segunda via, uma tarja verde. De repente, uma lista de mercado, uma mudança de hábito, no conhecimento, na frequência, então a Farmaleaf é muito mais essa visão, e a gente está tentando unir a inteligência artificial e juntando todas as fontes pra te entregar uma curadoria, vamos dizer, de produtos e direções que, de repente, te levam pra medicina personalizada. É o que eu vivi como profissional, mas muito mais real até para todos os seres humanos, porque todos temos as nossas diferenças e, na medicina, quanto mais personalizado, melhor, né?, então, a Farmaleaf tá indo pra esse lado. Tô muito feliz, já, já a gente deve ter algum MVP pra mostrar.
Quando você descobriu a cannabis como uma substância terapêutica pra suas dores, você utilizou primeiro em forma do bom e velho baseado; e, ao mesmo tempo, você está empreendendo numa empresa de cannabis medicinal. Afinal, o que é cannabis recreativa e o que é cannabis medicinal? São coisas diferentes?
É, eu acho que assim, hoje em dia, por exemplo, álcool eu não bebo mais, eu dei uma segurada forte já faz um ano, teve uma época que eu fiquei quatro anos sem, porque eu tava ali, tomando todo dia e tal, e aí, tipo, você sente o desgaste, você sente ali, que mexe, né?, com quem tá sempre usando corpo. Onde está a linha do recreativo e onde está a linha do medicinal, né? Você come açúcar recreativamente? Né?
“A cannabis faz parte de vários lifestyles, do skate, da natação, como todos os seres humanos; as pessoas atrelam ao skate, engraçado, mas não somos os únicos”
Só recreativamente (risos).
É (risos), porque na verdade você não precisa. Então eu, recreativamente, porque eu quero, porque tal, tem um monte de fatores, mais a dopamina do que qualquer outra coisa, a maioria das drogas é o quanto de dopamina que cria. Eu tenho uma velocidade, eu fico o tempo inteiro, né?, sempre foi assim, ah, vou pintar, depois eu vou andar de skate, eu gosto de ficar aprendendo, estou sempre na ativa. A cannabis também sempre foi como um ansiolítico, mas não, porque, porra, imagina se eu for pegar e tomar os ansiolíticos que estão aí, ou um Rivotril da vida, isso aí tudo, é muito, é um acelerador muito que eu não quero, entendeu?, porque é uma questão que eu sei que quando você utiliza demais, tudo que você acelera demais é ruim. Eu sinto que a cannabis sempre foi uma mantenedora de ritmo, na saúde mental e também na inflamação, estou sempre machucado, aí não só isso, mas aí, porra, beleza, então vamos parar de comer comida que inflama. Aí tirei os laticínios, você começa a entender, então não é só, não é uma, eu sei que você quer tirar uma, aí você vai falar ‘ah, cannabis, ela vive um momento que ela é foragida dentro da realidade da sociedade’, precisa ser, uma coisa assim, porra, pegar aí, assim, acho que as primeiras que tem, se tiver que proibir, né?, porque acho que proibir também é uma coisa que as pessoas, os seres humanos adultos vão pegar e falar assim “cara, olha só, você vai fazer o que você achar que você quer fazer com a sua vida”. A gente não pode incentivar, mas proibir é uma coisa que não funciona, é melhor legalizar tudo e regular. Quando você entra nessa onda, acaba proibindo uma coisa que é real e saudável, a forma que se toma, que acho que a gente tem que tomar cuidado, que obviamente a fumaça não é bom, mas de uma maneira geral, ela traz uma tranquilidade e uma saúde, não só para o ser humano, mas uma saúde de mercado, uma saúde sustentável. A fibra, as sementes, o óleo, a comida, a nutrição, né?, então tem um monte de coisa que ela pode… como a moringa, que é incrível. Quando a gente vê o álcool legalizado, é uma das piores, e não só é legalizado, como é incentivado e tranquilizado. Se tivesse que dar um basta, basta o álcool, segura isso daí que você vai, aí você vai fazer alguma diferença, mas não é a diferença que a gente quer, é um controle do que está no ar, é um controle mercadológico, é um controle de, não é só, da saúde, né?, então o próprio combustível, plásticos, grandes empresas, grandes, né?, informações, né?, então eu acho que é isso, a gente tem que quebrar essas essas barreiras aí. Não é incentivo, e aí também tem os momentos, né?, que a gente sabe muito bem que na parte de desenvolvimento do cérebro, a maconha também na adolescência não é legal, não é bom, isso aí é pro cérebro adulto, é outro momento, então às vezes as pessoas confundem pra poder falar “ó, que maneiro, né?, tipo, é, vão legalizar tudo e está tudo certo”… não, não está tudo certo, tem que estar bem pensado, né.
“Quando você entra nessa onda, acaba proibindo uma coisa que é real e saudável (…) traz uma tranquilidade e uma saúde, não só para o ser humano, mas uma saúde de mercado, uma saúde sustentável“
Você tem ideia de quantas medalhas você ganhou high?
High? Tipo, doping? (risos). Eu não era fã de competir, de fazer as coisas assim, não era, não. Eu gostava de estar ali presente. E depende muito da onda, depende do que é, tipo, ser uma coisa criativa, porque também tem um lado criativo, né?, que o skate tem eventos de melhor manobra, tem coisas assim, que é diferente, a pressão é outra, é outra interação, então acertar manobras, pensar em coisas, obstáculos, fazer arte, é uma coisa criativa, não é uma coisa de se fazer, por exemplo, quando você tá no foco, dirigindo, pilotando, tem um monte de coisa que você tem que estar ali. Então uma coisa é você ter um pouco no corpo porque você usou no dia anterior, algum óleo ou o que foi, aí tá ali, você tá relaxado, isso é uma coisa. Agora imagina, se você relaxa demais no momento que você precisa ser criativo e é outra frequência, beleza… então, competições, não é o melhor dos mundos.
E hoje em dia como é que você usa?
Quais são os modos? É normal, eu acho que não é uma coisa também como era antes, é uma coisa diferente. Hoje, por exemplo, como eu também vivo machucado, no Brasil não tanto, porque o mercado não é tão aberto e não tem tanta opção, mas por exemplo, quando eu vou pra Califórnia, tem de tudo, desde o sal de banho que tem lá o THC, o CBD e tal, e você tá ali, você absorve. Tem óleos para antes de dormir, no final de semana, de manhã e tal. Antes era assim, né?, porque era o tempo inteiro, você, porra, sempre machucado, aí sempre competindo, aí sempre correndo. Ou era isso ou era droga mais pesada, porque é onde muitos hoje vivem na sociedade, tomando muita coisa todos os dias. Todos os dias você vai acordar, vai tomar não sei qual remédio, depois você toma aquilo ali, depois você toma aquele lá. A maioria até que vai ler aqui, vai falar “nossa, meu Deus!” E o que que acontece, cara, a gente tá numa montanha-russa de emoção pelas drogas variadas, até café, açúcar, e aí, quando você para pra pensar, se você tentar dar uma desacelerada nas coisas, acompanhamento médico, se você tá tomando uma coisa, como eu falei, é muito a questão de controle de dopamina, essas coisas assim, tem que tomar cuidado, porque isso aí vem depressão, isso aí tudo é um… tem que prestar atenção, mas se puder tirar, aos poucos, dar uma pesquisada nas formas naturais, na cannabis, próprio cogumelo, na psilocibina, que também tem funcionado muito bem, são coisas que a gente tem que tirar tabu e prestar atenção, que às vezes vai te ajudar, né?, a entrar num ciclo rítmico mais longo prazo, com mais longevidade. As outras é muito pico de cima pra baixo, e é muita coisa, então acho que é importante isso, pra mim, é o que me acalma, me neutraliza.
E, Bob, você, então, que é um estudioso das plantas medicinais e outras substâncias enteógenas, conta pra gente alguma experiência pessoal ou de estudo nas suas vivências com a psilocibina?
É uma questão de well-being, mas tem gente que tem depressão profunda e que realmente ajudou, dizem que quanto maior a depressão, maior a dose. O que acontece? Ela te coloca numa outra realidade, interioriza, é uma viagem pra dentro de si. Numa microdose fica mais viável e mais real quando você está administrando naquele ritmo mais longo prazo, mais longevidade, então às vezes eu prefiro até a microdose, você fica mais ali. Se você está num tratamento e aí, né?, tem gente que precisa, tem dor de cabeça, que precisa tomar e entrar numa dose alta e depois fica não sei quantos meses sem a dor, e aí volta e faz o tratamento de novo, então, tem tantos casos, eu não sou médico, eu gosto de ter bastante experiência própria pra mim, mas quando você entra numa dose maior, como o DMT, ayahuasca, né?, onde tem inclusive até o pessoal do Santo Daime, entra numa pegada religiosa porque é uma busca interna. A maioria ataca porque ninguém quer se conhecer, dá muito medo de se conhecer, então lógico que você vai afastar, empurrar e vai querer atacar qualquer tipo de coisa e tentar proibir de todas as formas e tal, mas quando a gente abre a cabeça, principalmente quando você abre a mente pra ter uma experiência, eu acho que pode ajudar muita gente a se encontrar. Por que você acaba jogando um jogo de teatro que não é real no dia a dia, e aí a gente dá muita ênfase numa coisa que é ilusão, então quando você entra numa realidade mais profunda, eu acho que o dia a dia fica mais, tudo fica mais leve, porque você pega e fala “ah, não é tão sério assim, ah, não é tão intenso assim, eu que tô colocando essas caixas. No meu caso, na minha experiência, eu não preciso ficar toda hora tomando grandes doses”‘. Essa não é a minha, mas eu já tive diversas experiências que são de mudar a vida, porque tudo é percepção, é bom ser lembrado de que tem uma natureza maior; eu acho que a grande evolução do humano, do espírito humano, é o crescimento pra dentro.
“Já tive diversas experiências que são de mudar a vida, porque tudo é percepção, é bom ser lembrado de que tem uma natureza maior; eu acho que a grande evolução do humano, do espírito humano, é o crescimento pra dentro”
E aí quando você vai nessas viagens pra dentro, aparece a sua vivência como esportista, ou é uma coisa mais realmente de ser humano, de quem sou eu e quais são os meus valores?
Eu ando de skate, tenho uma razão espiritual mais profunda do porquê que eu faço o que eu faço, eu sou assim, é da minha natureza, é do meu jeito, pensar no que eu penso, de fazer manobras, montar videopartes e pensar em coisas criativas e desenhar rampas. Isso tudo é uma manifestação minha como ser humano, como é pintar um quadro, como é fazer uma arte na parede, é uma forma em movimento de eu fazer isso. Então não muda a ideia de que é uma manifestação interna, espiritual, criativa de mim para o mundo, pra fazer acontecer. Por isso que eu uso muito o visualize e materialize, porque tudo é isso: visualize e materialize. Enxergar antes pra poder fazer acontecer. Então, como ser humano, a gente se entendendo melhor, óbvio que tudo que a gente for fazer, a gente vai fazer bem. Andar de skate, eu me conhecendo melhor e eu tendo uma razão de andar, porque tem várias formas de você fazer. Você pode fazer porque quer ser o campeão, o cara mais rico, você quer ganhar. Tem essa forma também, né?, e ela tem um peso, né?, e na verdade isso acaba, ela tem um abismo. Mas quando você tem e é muito mais profundo do que as pessoas acham e do que é seu com aquilo, tudo é melhor. A minha experiência como humano, como espírito humano, vai transbordar na minha expressão, nas coisas que eu faço, no meu andar de skate e tal. É mais assim, me mostra o quanto isso não tem nenhum valor no sentido de ego. Não tem assim “nossa, você faz isso, caramba, você é um cara incrível”, não tem isso. Acho que esse aí é o principal, é o que me ajuda nisso, né?, porque depois que você entende que tudo vira poeira, troféu, medalha, isso aí vai embora. Mas o que é que fica? O que você aprendeu, como que você tocou as pessoas, como elas foram inspiradas, acho que essas são as verdadeiras essências. E é só você tendo uma experiência de vida; então eu acabo tendo esse entendimento, mas isso veio bem cedo, de entender que era muito mais do que eu ganhar, não me fazia querer andar só de motorista.
Você fala muito dessa criatividade que você tem e que pode ter também com o auxílio dessas substâncias. Alguma das manobras que você criou foi visualizada durante alguma dessas experiências com cannabis ou psicodélicos?
A experiência humana no decorrer do meu dia-a-dia, eu não sou skatista uma hora do meu dia, eu sou skatista. Da mesma maneira que eu sou um músico, que eu sou um artista, então as ideias, elas vêm a qualquer momento, de repente eu tô ali e aí em momentos de inspiração como eu gosto de desenhar, de repente vem uma visão e aí eu coloco, então eu não tô desenhando, mas eu penso em alguma coisa, eu corro, escrevo. Hoje você pega o telefone, pega o caderno de notas e escreve a manobra, então muitas vezes vem uma ideia, eu anoto ela; porque é a mesma coisa com a melodia para o músico, se você não anota ou não canta, você vai esquecer. Em forma de anotações, muitas ideias vieram assim, anoto a ideia, aí depois eu vou lá e tento. Mas também quando eu vou tentar a manobra ela pode se transformar em outra, porque na visão e no sonho ela foi de um jeito, e aí quando eu fui tentar, a realidade tá melhor se eu virasse mais um 180, sei lá, ao invés de eu ficar preso à visão que eu tive, você se rende à visão nova e aí você aprende algo diferente. Às vezes essa é a parte mais difícil, porque aí o ego te segura e fala “não, você pensou daquele jeito, tem que fazer daquele jeito”. Acho que a fluidez das coisas, assim, né?, tipo, ah, veio essa ideia, mas essa outra aqui, que também é legal e diferente, acabou sendo mais fluida, depois eu posso tentar, né?, continuar tentando, mas eu tento deixar fluir, não ficar batendo numa tecla.
Normalmente a gente vê uma pessoa obcecada por alguma coisa, ela tá naquilo e é quase um monotema na vida dela, e você quebra essa expectativa. Você é músico, artista, pinta, faz de tudo. Como chegou a manifestar tudo isso?
Bom, é uma coisa de cada vez. Com o decorrer da vida, eu sempre gostei de desenhar, então eu tava sempre desenhando, teve um tempo que eu parei, mas não fiz mais, mas, pô, tava sempre de alguma maneira desenhando. E aí sempre sonhei em ser paraquedista, porque, pô, adorava. Eu olhava pro céu e eu queria voar. Minha mãe é artista, ela pinta e tal, então ela sempre bem criativa, mosaico, fazia de tudo, qualquer coisa ela fazia. E o meu pai sempre muito estudioso, os computadores, aí eu lembro que eu peguei um livro dele, fui lá e programei um negócio, um espiral do negócio desenhado num computador no final de [dos anos] 80. Mas conforme o tempo foi passando, eu me interesso por geometria, adoro, principalmente hoje em dia, geometria sagrada, espiritual, tal. Eu gosto de ler, então tô sempre lendo. Eu não queria estudar o que me mandavam estudar, né?, então assim, na escola eu ia mal, porque, tipo, assim, você quer que eu faça isso, mas eu não quero fazer isso, eu quero fazer aquilo. Era o meu jeito, então eu fui atacando de coisa em coisa. Agora, como skatista profissional, e eu ando em tudo, street, inverte, ah, vou competir de inverte, ah, vou competir de mega, ah, eu quero andar em tudo, em piscina e tal. Eu queria experimentar tudo porque me fazia um skatista melhor se eu tivesse essa visão. E aí, piloto, ah, quero tirar o brevê de piloto, mas por quê? Por que eu tô viajando o mundo, andando de skate, e não tenho tempo pra ir a uma faculdade, e eu precisava ter um desafio mental, intelectual, então, ah, vou tirar meu brevê de piloto, aí junta tudo. Mecânica com trigonometria, com meteorologia, com não sei o quê, então, só de saber por quê, porque aí na pressão do skate, onde está todo mundo, meu Deus, que manobra que eu vou fazer, o campeonato vai chegar, e aí, ah, eu tô nervoso, como é que eu vou andar? Pô, eu tava ali na mesa do café da manhã, com meus livros de aviação abertos, estudando, e aí a galera, “tipo, cara, você não tá fazendo o campeonato mais tarde”? Eu falei “pô, mas o campeonato é mais tarde, né?, aí eu tô aproveitando aqui”, e ficava ali, nessas, me entretendo. Mas isso era também porque era uma maneira de eu não pensar e ficar assim, ah, meu Deus. O negócio é na hora, antes, então, vamos lá, né?, e vamos tentar aproveitar; e aí, como eu sou skatista, tenho patrocínio de alguma marca, tô interagindo nas empresas, fico interagindo com a galera de marketing. Fico aprendendo, estudando, fico entendendo qual que é, porque, então, eu tive a oportunidade de viver esses aprendizados. Então eu aproveitei a situação e ficava interessado, engajado e tal, e aí isso foi fazendo com que eu evoluísse, mas sempre uma coisa de cada vez. Tirei meu brevê de piloto, depois comecei a saltar, depois comecei a voar de helicóptero, são fases, até acrobacia de avião eu fiz um tempo, foi legal pra caramba.
E vem cá, você conhece a preguiça? Já chegou a experimentar isso?
Acho que uma das coisas que eu tenho é a procrastinação, né?, eu empurro, empurro, empurro. Na escola não ia tão bem, mas eu, pô, estudava, eu queria, as outras coisas me interessavam, então, assim… pô, tem que fazer a mala, porque amanhã eu vou viajar, e aí, eu fico o dia inteiro, não faço porra nenhuma, fico fazendo outras coisas, aí na hora que quando não tem mais jeito, aí eu viro a chave e viro o fazedor de mala profissional. Andar de skate pra mim, ou pintar, por mais que eu tenha que fazer alguma coisa, um projeto, é o que me relaxa, então não é preguiça, não vou ter preguiça de desenhar, né?, então, se eu não tô afim de fazer muita coisa, não tô afim nem de pensar, porque eu venho pensando a semana toda e tô cansado, aí eu pego um desenho que eu já desenhei, que eu já contornei e fico fazendo sombra, mas não tô não fazendo nada, não tô necessariamente pensando, só fazendo a sombra.
A espiritualidade apareceu na conversa algumas vezes. Como você define a sua espiritualidade hoje?
É assim, eu sou muito enraizado no espiritismo, e, obviamente, no sentido de um entendimento maior de várias existências contínuas. Isso aí pra mim é uma realidade profunda, mas também na parte energética, que eu acho que é a questão da geometria sagrada, tem uma pegada de, acho que a galera fala de esoterismo, mas não é, é uma questão de energia mesmo. Qual que é a minha religião, se for falar, a energia. As energias e frequências, né?, então o que a gente vibra é o que a gente é, então, no caso, e tudo que vai, vem, como abaixo, assim, acima. Eu acho que esse é mais o meu encaixe, até porque se você for parar e pegar uma figura e aí pegar, e aí o outro povo acredita numa outra figura, e aí o outro numa outra figura, o norte é o mesmo, os caminhos diferentes, mas não existe um totalitarismo, porque a mente ela é constante e em evolução eterna, então o que eu vejo agora, eu posso ver diferente amanhã, saber que a probabilidade de eu ver que eu não sei absolutamente nada é muito alta. Qual que seria a melhor religião? O agora. Para de pensar em tanta coisa assim. O que que você pode fazer agora? Qual é a sua produtividade nesse momento? Nessa situação que você tá, como é que você pode ajudar? Sei lá onde você tá, na padaria e tem uma situação ali, um cara faz isso, sei lá, você tá ali no momento, qual é a melhor forma que você pode estar presente nesse momento?
“Qual que seria a melhor religião? O agora. Para de pensar em tanta coisa assim. O que que você pode fazer agora?”
Imagino que você tenha acompanhado os Jogos Olímpicos, que acabaram agora no último domingo. Que análise você faz da evolução do skate nessa que é a segunda Olimpíada de que o skate participa?
Eu acho que, primeiro, é muito estranho, continua sendo, acho que sempre vai ser, pra mim, a estética do evento. Porque você tem que padronizar, porque a gente tá falando de países e equipes e tal, então você padroniza para todos os esportes estarem numa grande família, vamos dizer, num grande time. Então isso faz com que o skate entre nesse padrão, é estranho. Pra mim é estranho, porque não foi o natural do que eu cresci vendo. Não sei o quanto eu, na minha personalidade, na idade que eu tava, se eu ia estar lá. Se eu ia conseguir debater comigo mesmo e me convencer de estar. E, obviamente, que, ao mesmo tempo, lógico que eu estaria com o maior prazer, como eu competi vários eventos. As Olimpíadas é um lugar onde você coloca o interno, o uniforme, a maletinha, vai lá, faz seu trabalho, vai embora e vive. Você, pô, “fui trabalhar, fazer o que eu tenho que fazer e agora vou fazer o que eu quero fazer”
Então, assim, de uma maneira de performance e ver a galera ali andando no nível que estão andando e representando de uma maneira diferente, mas representando países. Acho que é isso que me estranha. Por mais que eu sempre representei o Brasil e a gente ficava feliz e, porra, mas você é fã de alguém, não pelo país, você gosta pelo alguém, pela personalidade e a forma que ele anda. Na Olimpíada existe essa competição saudável entre países. Então, lógico, você quer ver um brasileiro se dar bem, você fica naquele jogo de emoções. Mas como eu vivi uma época pré, apesar de ter sido presidente [de organização do setor], ajudado de uma maneira burocrática e por trás das cenas, eu chego ali, na minha parte de skatista, eu vejo o tamanho da competição, eu vejo o quanto é e quanto seria legal e quanto é importante você representar seu país dessa maneira, mas o seu esporte, ele está representado. Então, quem vê por trás das câmeras, não. Na frente, sim, e muito. Com o espírito do skate, aquela camaradagem, todo mundo andando, e do alto nível. As manobras que estavam acontecendo ali, as finais do street masculino foi uma das mais intensas que eu já vi, e de qualidade, vendo manobras que eu nunca tinha visto. A maioria acontecendo ali na hora. Pedro Barros, o Japinha, torci muito também pra isso dar bem. A parte que me estranha é o uniforme. Acho que sempre foi uma questão, e a moda está diferente. Antes, o skatista tinha um jeito. Tinha uma família muito grande, mas tinha mais ou menos um jeito. O que se ouve, o que se faz. Hoje em dia, não tem mais essa. Acho que isso que é legal. Skatista tem de tudo quanto é jeito. E aí, isso dá pra ver. E aí, ali, o que me parece às vezes é que eu estivesse assistindo um campeonato de tênis, mas eu estou vendo um campeonato de skate. É muito estranho pra mim. Estou falando de uma maneira assim, de quando eu olho os Jogos Olímpicos, que padronizam as coisas e os uniformes. Quando eu jogava handball na escola, quando eu ia pra escola de uniforme (risos).
“As Olimpíadas, é um lugar onde você coloca o uniforme, a maletinha, vai lá, faz seu trabalho, vai embora e vive”
A coisa do THC, que ainda está na lista de substâncias controladas, e você já pelo menos cinco anos vem dizendo que não faz sentido que a WADA siga classificando o THC como proibido. Afinal, o THC ajuda o esportista, atrapalha ou nenhum dos dois?
Ah, não sei. Acho que esses assuntos assim, deixar os gregos e os… o que é de César, deixa resolver. Por que não tem muito… eu acho que é uma questão… o que ajuda, o que não ajuda, o que vai, o que não faz. Eu acho que de uma maneira, o esportista, por exemplo, ajuda mentalmente ou não? Eu acho que é melhor não. Não de ser proibido. Porque cada um, cada um. A maioria ali, se você falar, não vai querer usar antes de competir. Mas, sei lá, usou na noite anterior pra relaxar, o corpo tava doendo e tal, não sei o quê. Então, isso aí, eventualmente. Inclusive, acho que eu não sei como está ali agora, mas era bem pior. Deu uma aliviada. Acho que só durante competição o THC não pode, mas CBD, essas coisas, tudo pode, antes, durante e tal. E hoje, no caso, se estiver fora de competição, eles podem aparecer lá na pista de skate, ou onde for que estiver, e você pode estar usando ou ter usado, que não tem problema nenhum. Realmente, acho que é doze horas antes da competição e aí, durante a competição e depois que tem isso daí. Eventualmente, vai soltar, porque não faz sentido mesmo.
Como você vê a questão da reparação histórica dentro da indústria da cannabis? Hoje ainda são pouquíssimas as iniciativas no Brasil. Por onde daria pra implementar alguma ação nesse sentido?
Eu acho que no momento que a lei é ajustada, e ela deve ser, e conforme ela vai evoluindo, ela tem que ter também um olhar pra trás, um olhar pro agora. São causas sociais profundas, de muita gente indo presa, e depois preso, depois que muda a lei, como é que faz?, aí tem que soltar. Então são casos muito mais profundos, eu acho que é importante ver toda a sociedade. No meu caso, é uma questão de informação, então o que eu faço é falar sobre, acho que incentivar a educação e aí quando puder, se tiver algum empurrão pra algum lado ou pra outro eu tento estar presente, mas eu acho que é isso, eu acho que todo mundo tem que prestar atenção nas causas que são próximas do coração, mas que são injustos, o que é injusto tem que ser olhado, tem que ser trabalhado.